O estilista Melk Z-Da no backstage de seu desfile de verão 2012/2013 no Fashion Rio.

O estilista Melk Z-Da no backstage de seu desfile de verão 2012/2013 no Fashion Rio.

O pernambucano Melk Z-Da é um dos poucos estilistas brasileiros que aposta em um moda conceitual e experimental. Por fazer diferente, seu trabalho destaca-se em meio às semanas de moda e tem colhido elogios e boas críticas de editores consagrados. Melk, porém, sabe dos desafios de se dedicar à uma estética que pode ser considerada pouco ‘real’ e difícil de ser consumida. Nessa entrevista, ele fala um pouco sobre isso e sobre novos planos da marca que leva seu nome.

Por que você escolheu a moda conceitual?

Eu sou conceitual, já começa daí. Eu gosto muito de arte, acho que tudo tem que ter uma explicação, uma profundidade. E quis continuar com roupa. Claro que é um pouco difícil, pois você tem que explicar o que você está fazendo, mas eu acho que estou conseguindo um pouco de equilíbrio nisso, de ter uma roupa diferente e experimental, mas ao mesmo tempo buscando criar o desejo também. Porque é legal quando você cria algo, no caso roupas, e que as pessoas queiram usar aquela roupa. Essa identidade de ter uma pesquisa forte por trás e trabalhar uma coisa mais diferente eu sempre quero ter e quero que tenha isso na marca, acho importante. Eu gosto de experimentar. Por que usar apenas um desenho? Por que não misturar esse desenho com uma outra coisa?

Em uma entrevista, você disse que “Conceitual nesse mundo comercial é quase um título kamikaze.” Me explica essa afirmação?

Muitas pessoas falam que é difícil ganhar dinheiro com moda. Não, tem muita gente que ganha muito dinheiro com moda. O negócio é que moda, eu acho que tem que ser tratada como moda. Mas se você focar apenas em uma coisa você acaba perdendo. É justamente isso que eu estou buscando agora: existir um lado conceitual por trás e ao mesmo tempo existir um lado comercial. O conceitual está ali para quem gosta do conceitual, para quem quer ver alguma coisa diferente e o produto também está ali para quem quiser consumir.

Você vê uma diferenciação entre moda e roupa, então? O que você enxerga como moda?

É engraçado que essa visão vem sempre mudando. Hoje, na minha mente é bem claro que moda pode ser feita para ser um objeto, uma expressão de arte e ela também pode ser apenas uma roupa. Se você quiser ganhar dinheiro, tem que focar no lado roupa. Porque no lado da arte é mais complicado.

Mas você pensa em mesclar moda conceitual e comercial? Essa mistura pode ser uma realidade para você?

É uma realidade. É tanto que já venho fazendo consultorias, e várias mudanças na forma de trabalhar para que exista esse lado conceitual, que eu acho que um diferencial para a marca e ao mesmo tempo você tenha um produto mais simples, como por exemplo, uma bolsa, uma regata diferente, com um toque artesanal, um experimento que seja mais fácil de usar. Eu estou me adaptando para isso, porque também quero, é uma vontade minha. Não adianta a pessoa só admirar a tua roupa. Eu acho que o que vale mais é ela chegar ao ponto de comprar uma coisa porque gostou muito e acreditar que aquela roupa vai mudar alguma coisa nela. Eu acho isso importante e quero isso. Não quero apenas que digam: “Ah, essa roupa é incrível, mas eu não usaria.”

Você acha que existe espaço pro conceitual na moda atual?

Está começando um retorno. Tudo ficou tão massificado, tão copiado que, quando você começa a fazer um trabalho mais autoral, consegue seu espaço. Eu acho que está surgindo uma valorização. Mas para a marca sobreviver, ela precisa ter o lado comercial funcionando.

Foto: © Annina Barbosa



COMENTÁRIOS

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  1. Lilian Costa disse:

    Annina Barbosa sempre arrasando nas entrevista! Muito talentosa e abordagem reflexiva sobre moda! Um diferencial!