Patrícia Moura

31 de outubro de 2008 por

Patrícia Moura é artista plástica, alagoana de Maceió, iniciou sua carreira artística em 1999, com a pintura a óleo sobre tela, tendo como referência os temas naturais e as cores fortes do nordeste brasileiro.

Vivendo em Recife desde 2003, após participar de cursos na área de bijuterias, aceitou o desafio sugerido por Christiane Mazott, amiga paulista que é coordenadora de uma escola de Design de Jóias em Milão e que lhe apontou o caminho de uma tendência mundial – O resgate do artesanal e natural. Sugestão perfeita para quem sempre foi apaixonada pela matéria-prima natural, o que a fez mergulhar no vasto universo das sementes e outros insumos naturais que teve oportunidade de conhecer já bem antes, quando viveu na Amazônia, no final da década de 80, quando pouco se falava de bijuterias feitas a partir da matéria-prima natural.

Patrícia contou ao Hiperfashion alguns detalhes de seu trabalho, as etapas, dificuldades e suas fontes de inspiração e pesquisa.

Patrícia Moura // Coleção Fibras 2008

Patrícia Moura // Coleção Fibras 2008

HF// Como é seu trabalho na busca por matéria-prima?

PM// Costumo dizer que sou uma garimpeira com olhar atento na busca da matéria-prima que utilizo em minhas criações, onde misturo às sementes, fibras naturais, abalone, madrepérola, bambu, coco, pérolas, murano indiano, pedras semipreciosas brasileira, madeira de reflorestamento, dentre outros materiais. Muitos deles supostamente não se harmonizariam, mas tenho descoberto composições surpreendentes e que fazem a festa de meus olhos. Antes de iniciar uma coleção, passo muitos dias diante do computador, pesquisando insumos, fornecedores, sementes, tendências e notícias ligadas ao meio-ambiente. Depois, passo mais tempo visitando fornecedores, mercados públicos e lojas daqui de Recife. Fujo do trivial, uso pouco as sementes mais comuns e se uso, misturo com materiais diferenciados, com pouca oferta no mercado.

HF//Como você inicia o processo de produção de uma nova coleção? Em que costuma se inspirar?

PM// Inicio com pesquisa, sempre. Começo por tendências. Por exemplo, já começo a ver agora o que será usado na Europa no próximo verão. Reunidas as informações iniciais, começo a pensar no tema. A coleção Fibras, por exemplo, aconteceu de uma forma curiosa. Pesquisando informações para o meu CD, descobri que a ONU determinou que 2009 será o Ano Mundial das Fibras Naturais, objetivando o aumento do consumo e a melhoria da qualidade de vida de milhões de famílias que dependem das fibras para sua sobrevivência.

Coincidentemente, na época em que li a informação, estava em busca de um novo tema pra minha coleção outono-inverno de 2008. Será assim também em todo o ano de 2009, manterei o tema como forma de contribuição e incentivo ao aumento do consumo das fibras. Na verdade, creio que nunca mais deixarei de usá-las, são maravilhosas seja junto com a delicadeza das pérolas ou com a rusticidade do coco, não importa, se harmonizam com tudo.

HF// Como foi a pesquisa para a produção do CD “Uma viagem ao Universo Natural das Biojóias”? Quais dos aspectos abordados foram mais desafiadores?

PM// Quando comecei a fazer biojóias, a primeira dificuldade foi na identificação da matéria-prima. No Brasil gigante, uma mesma semente chega a ser conhecida com até dez, doze nomes diferentes, de acordo com a região produtora. Até eu descobrir isso, fiquei sem entender o que muita gente queria comprar de mim. A variedade de insumos que a natureza oferece é inimaginável. Acho importante que as pessoas que usam as biojóias saibam o que estão usando, saibam do valor agregado a cada item que compõe a biojóia. A pesquisa era para mim e acabou se transformando no CD. Costumo falar para as pessoas algo que me encanta.

O CD é dirigido àqueles que trabalham com insumos naturais, sejam fornecedores, lojistas, artesãos e é essa consciência que eu gostaria de despertar, porque todos nós podemos atuar como multiplicadores. É um trabalho simples, mas informativo.

HF// Quais os estilos (ou materiais) são mais procurados pelo público?

PM // As coleções são compostas, na grande maioria, de peças exuberantes, volumosas, felizes e, em geral, são muito bem aceitas por mulheres de personalidade marcante. Uma cliente que tem uma loja de produtos brasileiros nos USA me disse que as americanas amam as peças, mas algumas precisam se acostumar com a “alegria” delas. Brinco muito com as cores e mistura de materiais. As clientes assíduas o são por causa do estilo diferenciado das peças, além da consciência ecológica, mas é certo que apreciam muito a exuberância, o volume e o estilo diferenciado.

HF// Suas peças são exportadas para Estados Unidos e Europa através da Brazil Bio-Jewel – Design For Life. Como surgiu essa parceria?

PM// Surgiu como têm surgido várias das boas parcerias que tenho f’eito. Começam como clientes no varejo, gostam e acreditam na potencialidade das peças. Christina Andrade é de Minas Gerais e estava no Brasil quando descobriu meu site, fez o primeiro contato como cliente e pouco tempo depois, nasceu a Brazil Bio-Jewel.

HF// As biojóias têm uma maior aceitação no mercado internacional? Você acredita que o público brasileiro tenha uma certa resistência a produtos locais ?

PM// Tenho recebido contato de muitas empresas e a maioria delas é de brasileiros que vivem fora do Brasil, principalmente nos USA, Inglaterra, França e Itália, mas recebo e-mails de todas as partes do mundo, inclusive da distante Nova Zelândia. Pude constatar que quanto mais próximo da origem da matéria-prima natural, mais resistência existe em relação ao uso das biojóias, embora nessas mesmas regiões perceba o orgulho em relação ao que produzem. Não digo que não se usa biojóias na região norte, mas creio que o consumo de bijuterias com metal e material sintético é bem mais elevado do que os com a matéria-prima natural.

HF// Recentemente foi inaugurado seu show-room em Recife, como vem sendo a aceitação do público local? Houve alguma grande dificuldade na implantação desse projeto?

PM// Aqui eu tenho público certo para as bios e tem crescido sempre, mas isso no varejo. Ainda sou esnobada por lojistas e pela imprensa local, mesmo que meu trabalho seja apresentado com muita freqüência em revistas nacionais especializadas em acessórios de moda. Não sofro com isso, embora lamente, mas sou a criatura mais teimosa que Deus colocou neste mundo. Um dia consigo convencê-los de que biojóias não são coisas de “riponga”, como já ouvi pejorativamente de alguns.

O projeto não foi difícil de ser implantado, ao contrário, foi bem simples, porque o grupo que firmei parceria, o JFB, tem a frente uma mulher muito dinâmica, Betânia Barradas. O espaço Cia da Montagem, onde está instalado o showroom pertence a rede de lojas do grupo, que também é meu fornecedor.

HF// Como você se comporta frente à competitividade do mercado?

PM// Sem conflitos. Naturalmente percebo que há espaço para todos, afinal, o que seria do cinza esverdeado se todos gostassem do roxo amarelado (rindo). Biojóia é algo relativamente novo no mercado e como é algo que escolhi fazer por amor e por sobrevivência, sigo em busca de meu lugar ao sol. Adoro desafios e repito: sou teimosa, determinada. A internet tem sido minha maior aliada neste propósito. Passo horas diante do computador fazendo a promoção de meu trabalho e tenho já colhido belos frutos.

HF// Algum grande projeto a longo prazo?

PM// Não sei se será em longo ou médio prazo, mas quero adaptar meu CD para livro, além dos planos de abrir mais dois espaços, um no Rio de Janeiro e outro, possivelmente fora do Brasil, mas por enquanto são projetos, não conte para ninguém. A partir de fevereiro do próximo ano, as biojóias serão comercializadas na França, em uma loja brasileira que será inaugurada em Paris. Para cada empresa, crio uma coleção específica. No Rio de Janeiro, as bios estão sendo comercializadas através da representação de Dora Delgado e Renata Cunha.

HF// Que conselho você daria a um artista que pretende entrar no mundo das biojóias?

Primeiro: Entre! Você vai se apaixonar, tocar no céu!

Segundo: Procure cuidadosamente os seus fornecedores.

Terceiro: Não use penas de pássaros silvestres ou peles de animais ameaçados de extinção.

Quarto: Seja teimoso, persistente, determinado e como todo bom brasileiro, não desista nunca.

ONDE ENCONTRAR//

www.patriciamoura.com



COMENTÁRIOS

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  1. Vishwanath disse:

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